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25/10/2004
16:25
Nota de esclarecimento
Volto ao que me investe de ímpeto e afeto - as letras; e o mundo dos blogs não abandono, muito embora retorne quase que silenciosamente. Como é enorme minha a sede, agora eu escrevo lá:
www.sedeemfrenteaomar.blogger.com.br
Roberta Tostes
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24/09/2004
02:47

Sabe-se lá de onde escrevo estas linhas de deságua. Ausentei-me de ser, desvestindo-me de mim. Terminei não-sendo. Não me sucedi. Não me recriei. Desacostumei-me de me: achar, perder, somar e subtrair. Renunciei afetos e rancores. Abdiquei da condição de súdita do tempo. Parei presente. Formei vácuo. Desmaterializei-me. E daqui de onde não-estou, vejo-me, não vendo; antecipo nadas, espero o torpor passar...
Para daí a pouco: tragar cataclismas no meu sopro quente; cantar modinhas - de amor ou desespero; auscultar vida convalescendo, brotando em mim as chuvas de virão.
Roberta Tostes
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18/09/2004
18:57
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Sei em mim de vazios e tormentas,
Ferimentos da vida que não tive.
Sangro de erros e de acertos
Sucumbida ao vivido-morto.
À deriva, não freio lembranças,
Eu as trapaço.
Vicissitudes me rosnam
Como a gata que queres comprar;
E eu não sei se gosto,
Ou se gozo.
Nada me é o bastante até depois de amanhã.
Sigo fervendo,
Pecados me condensam,
Até que eu escorra
Aben-Suada de imperfeição..
Roberta Tostes
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17/09/2004
01:12

As vozes que escuto são icebergs que se chocam ao longe, tentando emergir. Assisto a tudo, impassível, porque sou e não sou neutra. Em mim, correm itinerários de loucuras e encontros com mar, terra e céu. No vôo em que me arvoro, voam árvores, tempos, desencontros... histórias.
Roberta Tostes
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14/09/2004
04:24
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as emoções me sabem, subindo adivinhações na pele e no sorriso frouxo. eu pouco falo, mas aquiesço, grata ao destino; e antecipo os calores do olhar que prego dentro do teu. como que pregar fosse palavra rústica para o enlevo da hora, eu já não prego: abotôo. desabotôo também; peça a peça do teu vestuário-corpo, pr'eu te buscar na alma, grande vício de Deus, e do meu amor de entranhas.
Roberta Tostes
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14/09/2004
02:49
O que eu busco
Não é aquilo que eu busco..
Roberta Tostes
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08/09/2004
04:57

Então descubro pequenos prazeres
Em grandes dores
Brinco de desafiar a solidão
Com minha companhia
Me perco de me achar
Nas sombras que me iluminam
Desenhando carinhos sobre a pele
ainda não tatuada
Roberta Tostes
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07/09/2004
04:18
Eu me recosto na janela. Os cabelos em desalinho querendo viver. E quem sabe um vizinho aturdido com a cena?
“Perdoe-me vizinho, mas eu ainda não acordei. Tô tocando no dia com os meus dedos, as minhas unhas frágeis. Tô sentindo a textura quente desse dia. O dia me chamando: Roberta, vem viver, Roberta. Vem!?”
Eu toco na vida, e como tudo o que toca é tocado também, eu vou descendo as escadas, apressada, com duas saudades deslizando quase tristes sobre os meus seios.
Roberta Tostes
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04/09/2004
00:37

Não que não houvesse motivos para chorar. Eles abundavam. Havia tristeza no sangue russo, no terrorismo checheno, no frio dos mendigos brutalmente mortos da cidade de São Paulo. Até nos medos da menina, corria, consternada, uma lágrima de desalento e fel, que ela fazia questão de substituir por manhãs suntuosas de risos, entre prazeres solitários e pára-raios de magias indecisas, que eram os seus poemas enfrentando o pó dos dias o qual
denominávamos reais.
Sim, eram reais as perturbações do corpo e da alma, as ânsias de vômito em meio a desmandos de atrozes governantes, democratas da dor e do desespero. A alegria era quase um crime naquele tempo. Por isso é que, cheia de pudor, a menina sorria, sem saber se sorria.
Solitária, sua alegria revogava tratados de consciência - que lhe rogavam prantos. Espécies raras da dor que ela nutria, germinavam prazeres que não se disfarçavam. Sorria com violência para a dor, seu perfume de avalanches, no que era gentilmente recompensada com gozo e graça, ainda que árida, inóspita, desertora.
Era possível que algum detalhe do código genético daquela criança, por ora mulher, houvesse escapado à fiscalização divina, e desse a ela prerrogativas de felicidade, perigosa regalia de loucos, de santos, e de parceiros seus, subversivos tímidos do desalento dominante. Era possível também que ela nutrisse esperanças, porque era jovem demais e trazia na bagagem as ventanias de um ideal. Mas talvez simplesmente ainda sorrisse porque era possível um mundo melhor.
Roberta Tostes
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01/09/2004
18:24
A Festa
Para acabar com essa sede de mim mesma, na forma alheia da superfície dos outros, eu fujo para a encenação. Enceno o meu, o seu e o nosso. Vou desenhando na cara os contornos de um sorriso vulgar, esbofeteando a natureza ingênua que a dor do ser depositou no meu ego-cêntrico. Brinco de ser. E acabo por acreditar que não há melhor maneira de matar o tempo. E de matar os sonhos. O meu passatempo cozinha à lenha os temperos mortos e os destinos que eu não haverei de ter. Em mim, tudo descamba pro inútil.
São sete horas na Igreja da Glória e ninguém repara a dor concentrada no peito do meu pé. A sandália atestando a vaidade feminina, dez centímetros acima do chão. E um salto fino que não combina com esse tornozelo que Deus me deu. E por falar em zelo, cadê minha mãe? Foi ser madrinha, não é isso? E correu pro altar mais depressa que a noiva. E correu pro altar como o Diabo foge da cruz. Há de ter sido a timidez, avermelhando o rosto e o vestido bordado. Eu ria de mim e do meu frio úmido. Da minha dor inútil e da vaidade que Deus me deu. E o frio entrando pelo corpete, vaidade adentro, me fazendo ingênua do começo ao fim.
Eu vesti aquilo e me senti estranha. A saia de crepe, o corpete largo na cintura, sandália me afligindo dez centímetros acima do chão. Eu e Nossa Senhora, observando o amor no rito matrimonial de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a pajelança que viria depois. Eu via a cruz e os decotes que Deus nos deu. Eu via a incerteza. E no meio de tanta alheia felicidade, eu também me vi, dez centímetros acima do chão, afundada em conjecturas: “Foi solene, mas foi bonito. Eu não me casaria como eles se casaram. Eu não vou me casar. Mas nem por isso vou dizer que aquela gota de emoção me saindo dos olhos era um cisco”. E depois da reza, a arromba. Deus se despediu ali mesmo, na Igreja, tremendo de frio, e foi ser Baco no vinho das bocas.
Eu fui brindar à Dionísio também. Mas no meio do caminho havia uma pedra Drummondiana que me fez lembrar que beber me faz mal. Eu fui para observar. E para dançar também.
Saí da Igreja, profana em minha descrença, e fui ser santa no mundo das sensações. Entrei na festa como que adentrasse a uma missa, escondendo-me na incerteza que eu só guardei pra mim. E eu sorria, despida despida da esperança de sorrir.
Sorri até umas onze da noite mais ou menos, e depois desisti. Fui ser eu mesma. E gargalhei. Claro que discretamente, e por dentro, sempre. Claro que chorando, mas rindo ao mesmo tempo, sendo eu mesma no mundo do não-eu. Aproveitei a contradição e fui me ver no espelho, para ver se eu ainda me via. E não é que ainda me vi? Lá no fundo das duas meninas dos olhos, eu estava lá, tremendo de frio, como Deus na porta da Igreja. Eu estava lá. Eu e minha primeira crença. Eu e meus anseios inúteis.
“Eu quero o grisalho! O grisalho com cara de rico!”; a menina mais bonita da festa gritava à porta do banheiro, juntos às outras, quase tão belas quanto ela, e que decerto um dia haviam de ter sido damas de honra nas Minas Gerais. Mineiras. Mineirinhas, mineirinhas. Haviam de ter sido damas de honra ao menos uma única vez.
Uma delas era irmã da Paula, a noiva da festa, agora mulher do meu tio. Uma delas conhecia-me por formalidade sem mérito. Agora cunhada desse irmão de minha mãe, que eu amo e nem conheço, haveria de compartilhar todo Reveillon comum que surgisse, e nada mais.
As meninas, ainda no banheiro, ajeitavam-se, confessavam-se, pactuando aventuras amorosas.
- Tem papel aí? - umas dela me perguntou.
- Claro, mas tem ali também, ó – respondi, recortando olhos acetinados de rainha.
Ao que me fiz aparecer pela resposta:
- Juiz de Fora faz um frio à noite (....)
(e não é que me interrogam com o olhar? – pensei, aturdida).
- Se bem que no Rio de Janeiro não deve estar assim tão quente – rebateram pra mim.
(Acaso me sabiam no Rio).
- Eu quero o grisalho! - a mesma moça, agora postada à minha frente, fez questão de gritar uma vez mais.
Eu meio que perguntei, sem perguntar:
- Que grisalho?
- Só que a Paula não me apresenta ele... e aquele nanico ridículo não larga do meu pé!
Eu também não larguei, só pra ver no que ia dar. Sentei no vaso sanitário e fiquei pensando: “mas que diabos faço aqui, sentada na curiosidade alheia?”.
Em cinco minutos, eu quem voltava à festa.
Música rolando alto, embaçando ouvidos e olhos febris. Olho pro palco, depois de horas de intencional desprezo. E não é uma Sheryl Crow que eu vejo? Uma Sheryl Crow brasileríssima a fazer um dueto duvidoso com outro Juiz Forense mais duvidoso ainda?
Aceitei o convite, e fui dançar.
Pausa para os pensamentos: O que é que se pensa enquanto dança? Alguém pensa enquanto dança? Eu penso. O que é que eu penso? O que pensa a dançarina profissional, enquanto eu, que nem danço, penso que danço? Eu penso? Sentir a música é dançar o oxigênio nas células? Eu danço o silêncio, e penso: O que é que eu danço?
Eu não sei o que é certo em matéria de dança, aliás, eu nunca sei o que é certo em matéria de nada. E mesmo dançando, eu não parei de pensar. Eu e os meus anseios inúteis...
Pensando o inútil, fui o salmão no vestido da moça, esvoaçando os cabelos, nutrindo sentimento nas células.
Eu e minhas células pensadas!
Àquela altura, o grisalho e a moça sumiram da festa.
Tirei os sapatos... meus pés doíam uma dor de libertação. Eu vi olhos, eu indaguei intenções, tateei à procura de mim nos recantos daquele salão. Só que eu não uso óculos nessas ocasiões, lembra? Uso-os quando estou em casa, ou quando canso de imaginar as formas míopes esfumaçadas no pensamento dos meus olhos. Talvez por isso eu veja sempre muito menos e muito mais.
Dançar foi doído, mas foi bom. Calçar aquelas sandálias também, porque depois pude retirá-las e, retirando-as, eu fui livre. Sentir frio me fez tossir, mas que saudade boa a do calor! Ser indagada com olhos de rainha me fez ver seu reino miniaturizado de princesa. Pensar às vezes dói, pensar demais corrói. Mas penetra-se em tudo, e sente-se tudo.
Estive em Cabo Frio dia desses, e não foi bom. Porque lá eu senti a dor de ser eu no ontem. Essas viagens de meio de ano me confundem! Eu fui um saudosismo abortado em Cabo Frio e, antes mesmo de chegar, eu já havia ido embora. Em Juiz de Fora, eu parti, e o futuro me olhou bem nítido nos olhos de cada um. Às vezes me assusto porque o futuro me interroga como o passado, e porque não ouso fazer distinções de tempo. Mas foi esperança de futuro quem me acenou ali.
Acordei hoje, temendo certezas, com gosto de guarda chuva na boca. E não é que choveu? Acordei rindo da maquiagem borrada na cara. Não sonhei, mas jurei ser para sempre o meu melhor sonho, e minha perene ilusão.
*Juiz de Fora, em Maio de 2003 (quando pensei que iria me mudar para lá); festa de casamento do meu tio.
Roberta Tostes
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