25/10/2004 16:25
Nota de esclarecimento

Volto ao que me investe de ímpeto e afeto - as letras; e o mundo dos blogs não abandono, muito embora retorne quase que silenciosamente. Como é enorme minha a sede, agora eu escrevo lá:


www.sedeemfrenteaomar.blogger.com.br


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 8 ) | Direitos Reservados



24/09/2004 02:47


Sabe-se lá de onde escrevo estas linhas de deságua. Ausentei-me de ser, desvestindo-me de mim. Terminei não-sendo. Não me sucedi. Não me recriei. Desacostumei-me de me: achar, perder, somar e subtrair. Renunciei afetos e rancores. Abdiquei da condição de súdita do tempo. Parei presente. Formei vácuo. Desmaterializei-me. E daqui de onde não-estou, vejo-me, não vendo; antecipo nadas, espero o torpor passar...

Para daí a pouco: tragar cataclismas no meu sopro quente; cantar modinhas - de amor ou desespero; auscultar vida convalescendo, brotando em mim as chuvas de virão.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 15 ) | Direitos Reservados



18/09/2004 18:57
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Sei em mim de vazios e tormentas,
Ferimentos da vida que não tive.
Sangro de erros e de acertos
Sucumbida ao vivido-morto.
À deriva, não freio lembranças,
Eu as trapaço.
Vicissitudes me rosnam
Como a gata que queres comprar;
E eu não sei se gosto,
Ou se gozo.
Nada me é o bastante até depois de amanhã.
Sigo fervendo,
Pecados me condensam,
Até que eu escorra
Aben-Suada de imperfeição..


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 7 ) | Direitos Reservados



17/09/2004 01:12


As vozes que escuto são icebergs que se chocam ao longe, tentando emergir. Assisto a tudo, impassível, porque sou e não sou neutra. Em mim, correm itinerários de loucuras e encontros com mar, terra e céu. No vôo em que me arvoro, voam árvores, tempos, desencontros... histórias.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 2 ) | Direitos Reservados



14/09/2004 04:24
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as emoções me sabem, subindo adivinhações na pele e no sorriso frouxo. eu pouco falo, mas aquiesço, grata ao destino; e antecipo os calores do olhar que prego dentro do teu. como que pregar fosse palavra rústica para o enlevo da hora, eu já não prego: abotôo. desabotôo também; peça a peça do teu vestuário-corpo, pr'eu te buscar na alma, grande vício de Deus, e do meu amor de entranhas.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados



14/09/2004 02:49

O que eu busco
Não é aquilo que eu busco..


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados



08/09/2004 04:57



Então descubro pequenos prazeres
Em grandes dores
Brinco de desafiar a solidão
Com minha companhia
Me perco de me achar
Nas sombras que me iluminam
Desenhando carinhos sobre a pele
ainda não tatuada


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 4 ) | Direitos Reservados



07/09/2004 04:18

Eu me recosto na janela. Os cabelos em desalinho querendo viver. E quem sabe um vizinho aturdido com a cena?

“Perdoe-me vizinho, mas eu ainda não acordei. Tô tocando no dia com os meus dedos, as minhas unhas frágeis. Tô sentindo a textura quente desse dia. O dia me chamando: Roberta, vem viver, Roberta. Vem!?”

Eu toco na vida, e como tudo o que toca é tocado também, eu vou descendo as escadas, apressada, com duas saudades deslizando quase tristes sobre os meus seios.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados



04/09/2004 00:37


Não que não houvesse motivos para chorar. Eles abundavam. Havia tristeza no sangue russo, no terrorismo checheno, no frio dos mendigos brutalmente mortos da cidade de São Paulo. Até nos medos da menina, corria, consternada, uma lágrima de desalento e fel, que ela fazia questão de substituir por manhãs suntuosas de risos, entre prazeres solitários e pára-raios de magias indecisas, que eram os seus poemas enfrentando o pó dos dias o qual
denominávamos reais.

Sim, eram reais as perturbações do corpo e da alma, as ânsias de vômito em meio a desmandos de atrozes governantes, democratas da dor e do desespero. A alegria era quase um crime naquele tempo. Por isso é que, cheia de pudor, a menina sorria, sem saber se sorria.

Solitária, sua alegria revogava tratados de consciência - que lhe rogavam prantos. Espécies raras da dor que ela nutria, germinavam prazeres que não se disfarçavam. Sorria com violência para a dor, seu perfume de avalanches, no que era gentilmente recompensada com gozo e graça, ainda que árida, inóspita, desertora.

Era possível que algum detalhe do código genético daquela criança, por ora mulher, houvesse escapado à fiscalização divina, e desse a ela prerrogativas de felicidade, perigosa regalia de loucos, de santos, e de parceiros seus, subversivos tímidos do desalento dominante. Era possível também que ela nutrisse esperanças, porque era jovem demais e trazia na bagagem as ventanias de um ideal. Mas talvez simplesmente ainda sorrisse porque era possível um mundo melhor.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 5 ) | Direitos Reservados



01/09/2004 18:24

A Festa


Para acabar com essa sede de mim mesma, na forma alheia da superfície dos outros, eu fujo para a encenação. Enceno o meu, o seu e o nosso. Vou desenhando na cara os contornos de um sorriso vulgar, esbofeteando a natureza ingênua que a dor do ser depositou no meu ego-cêntrico. Brinco de ser. E acabo por acreditar que não há melhor maneira de matar o tempo. E de matar os sonhos. O meu passatempo cozinha à lenha os temperos mortos e os destinos que eu não haverei de ter. Em mim, tudo descamba pro inútil.

São sete horas na Igreja da Glória e ninguém repara a dor concentrada no peito do meu pé. A sandália atestando a vaidade feminina, dez centímetros acima do chão. E um salto fino que não combina com esse tornozelo que Deus me deu. E por falar em zelo, cadê minha mãe? Foi ser madrinha, não é isso? E correu pro altar mais depressa que a noiva. E correu pro altar como o Diabo foge da cruz. Há de ter sido a timidez, avermelhando o rosto e o vestido bordado. Eu ria de mim e do meu frio úmido. Da minha dor inútil e da vaidade que Deus me deu. E o frio entrando pelo corpete, vaidade adentro, me fazendo ingênua do começo ao fim.

Eu vesti aquilo e me senti estranha. A saia de crepe, o corpete largo na cintura, sandália me afligindo dez centímetros acima do chão. Eu e Nossa Senhora, observando o amor no rito matrimonial de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a pajelança que viria depois. Eu via a cruz e os decotes que Deus nos deu. Eu via a incerteza. E no meio de tanta alheia felicidade, eu também me vi, dez centímetros acima do chão, afundada em conjecturas: “Foi solene, mas foi bonito. Eu não me casaria como eles se casaram. Eu não vou me casar. Mas nem por isso vou dizer que aquela gota de emoção me saindo dos olhos era um cisco”. E depois da reza, a arromba. Deus se despediu ali mesmo, na Igreja, tremendo de frio, e foi ser Baco no vinho das bocas.

Eu fui brindar à Dionísio também. Mas no meio do caminho havia uma pedra Drummondiana que me fez lembrar que beber me faz mal. Eu fui para observar. E para dançar também.

Saí da Igreja, profana em minha descrença, e fui ser santa no mundo das sensações. Entrei na festa como que adentrasse a uma missa, escondendo-me na incerteza que eu só guardei pra mim. E eu sorria, despida despida da esperança de sorrir.

Sorri até umas onze da noite mais ou menos, e depois desisti. Fui ser eu mesma. E gargalhei. Claro que discretamente, e por dentro, sempre. Claro que chorando, mas rindo ao mesmo tempo, sendo eu mesma no mundo do não-eu. Aproveitei a contradição e fui me ver no espelho, para ver se eu ainda me via. E não é que ainda me vi? Lá no fundo das duas meninas dos olhos, eu estava lá, tremendo de frio, como Deus na porta da Igreja. Eu estava lá. Eu e minha primeira crença. Eu e meus anseios inúteis.

“Eu quero o grisalho! O grisalho com cara de rico!”; a menina mais bonita da festa gritava à porta do banheiro, juntos às outras, quase tão belas quanto ela, e que decerto um dia haviam de ter sido damas de honra nas Minas Gerais. Mineiras. Mineirinhas, mineirinhas. Haviam de ter sido damas de honra ao menos uma única vez.

Uma delas era irmã da Paula, a noiva da festa, agora mulher do meu tio. Uma delas conhecia-me por formalidade sem mérito. Agora cunhada desse irmão de minha mãe, que eu amo e nem conheço, haveria de compartilhar todo Reveillon comum que surgisse, e nada mais.

As meninas, ainda no banheiro, ajeitavam-se, confessavam-se, pactuando aventuras amorosas.

- Tem papel aí? - umas dela me perguntou.

- Claro, mas tem ali também, ó – respondi, recortando olhos acetinados de rainha.

Ao que me fiz aparecer pela resposta:

- Juiz de Fora faz um frio à noite (....)

(e não é que me interrogam com o olhar? – pensei, aturdida).

- Se bem que no Rio de Janeiro não deve estar assim tão quente – rebateram pra mim.

(Acaso me sabiam no Rio).

- Eu quero o grisalho! - a mesma moça, agora postada à minha frente, fez questão de gritar uma vez mais.

Eu meio que perguntei, sem perguntar:

- Que grisalho?

- Só que a Paula não me apresenta ele... e aquele nanico ridículo não larga do meu pé!

Eu também não larguei, só pra ver no que ia dar. Sentei no vaso sanitário e fiquei pensando: “mas que diabos faço aqui, sentada na curiosidade alheia?”.

Em cinco minutos, eu quem voltava à festa.

Música rolando alto, embaçando ouvidos e olhos febris. Olho pro palco, depois de horas de intencional desprezo. E não é uma Sheryl Crow que eu vejo? Uma Sheryl Crow brasileríssima a fazer um dueto duvidoso com outro Juiz Forense mais duvidoso ainda?

Aceitei o convite, e fui dançar.

Pausa para os pensamentos: O que é que se pensa enquanto dança? Alguém pensa enquanto dança? Eu penso. O que é que eu penso? O que pensa a dançarina profissional, enquanto eu, que nem danço, penso que danço? Eu penso? Sentir a música é dançar o oxigênio nas células? Eu danço o silêncio, e penso: O que é que eu danço?

Eu não sei o que é certo em matéria de dança, aliás, eu nunca sei o que é certo em matéria de nada. E mesmo dançando, eu não parei de pensar. Eu e os meus anseios inúteis...

Pensando o inútil, fui o salmão no vestido da moça, esvoaçando os cabelos, nutrindo sentimento nas células.

Eu e minhas células pensadas!

Àquela altura, o grisalho e a moça sumiram da festa.

Tirei os sapatos... meus pés doíam uma dor de libertação. Eu vi olhos, eu indaguei intenções, tateei à procura de mim nos recantos daquele salão. Só que eu não uso óculos nessas ocasiões, lembra? Uso-os quando estou em casa, ou quando canso de imaginar as formas míopes esfumaçadas no pensamento dos meus olhos. Talvez por isso eu veja sempre muito menos e muito mais.

Dançar foi doído, mas foi bom. Calçar aquelas sandálias também, porque depois pude retirá-las e, retirando-as, eu fui livre. Sentir frio me fez tossir, mas que saudade boa a do calor! Ser indagada com olhos de rainha me fez ver seu reino miniaturizado de princesa. Pensar às vezes dói, pensar demais corrói. Mas penetra-se em tudo, e sente-se tudo.

Estive em Cabo Frio dia desses, e não foi bom. Porque lá eu senti a dor de ser eu no ontem. Essas viagens de meio de ano me confundem! Eu fui um saudosismo abortado em Cabo Frio e, antes mesmo de chegar, eu já havia ido embora. Em Juiz de Fora, eu parti, e o futuro me olhou bem nítido nos olhos de cada um. Às vezes me assusto porque o futuro me interroga como o passado, e porque não ouso fazer distinções de tempo. Mas foi esperança de futuro quem me acenou ali.

Acordei hoje, temendo certezas, com gosto de guarda chuva na boca. E não é que choveu? Acordei rindo da maquiagem borrada na cara. Não sonhei, mas jurei ser para sempre o meu melhor sonho, e minha perene ilusão.


*Juiz de Fora, em Maio de 2003 (quando pensei que iria me mudar para lá); festa de casamento do meu tio.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados



30/08/2004 17:56

As montanhas do Eu


Crescemos rápido como casuarinas naquele sol de terra quente em que vivíamos. Não criamos muitos ornamentos; fomos plantas da terra seca. Só que lambuzamos em pedra-sabão a nossa umidade de escultura; e de escultor. Tessitura seca dentro do céu da boca.

Houve oásis nas horas de aconchego. Um par de orelhas disposto a virar brinco. Sem ourives, nossas jóias dinamitaram. Um par de bocas disposto a virar boca. E monte de mãos acenando o adeus.

Na vida há duas espécies de abandono. Poder-se-ia dizer: real e imaginário. O que abandona, e o que é abandonado.

Há leis que não mudam sem que haja uma remodelação dos céus. Há devires e deveres. As atribulações não começam no corpo.

Escalamos montanhas. Ilhas sob a terra firme do nunca. Arquipélagos que éramos, agrupados n´algum seco de oceano. Diferentes tamanhos e formatos. Primeiro Ato: As Montanhas do Eu.

Um nome sugestivo para aquele bando de casuarinas estufadas. Decalcadas, peça a peça, nas vestes que não nos serviam mais. A tessitura quente dentro do céu da boca. Um véu recolhendo os instintos. Eu servia ateu Deus.

Ensaios na sacristia da alma. Poucas realizações, mas muito talento para amar.

Aos poucos, aprendíamos tanto mais o fracasso que o abraço do aplauso. Havia muita divisão compartilhada, e um desejo triplo de sermos eu, você, nós.

A escalada é íngreme, sem tréguas para o corpo em que se cultiva o brotar de casuarinas, estátuas em pedra-sabão, umas poucas esculturas nascendo urgentes, personagens tecidos de umidade-lágrima.

A vida é um anfiteatro, úmido, com arquibancadas, e no centro, uma erosão, para espetáculos públicos, combates de feras, ou de gladiadores; jogos e representações. Oval ou circular, a vida é muito mais que verbete de dicionário. A vida não é biológica. A vida é teatral.

Com direito a leão faminto. Com direito a cristão. Que ponham fogo em Roma! Que a romaria cesse. Que as feras se desenjaulem, todas, porque são dóceis na mão do horror.

Venham pro palco, as aflições. Tolas. Que eu recomece, de novo, outra vez. Aquele instinto de feto de que eu me persuadi a abortar. Imberbe capacidade de ser gente, um rosto púbere, um ventre branco, erodido de plasma poético. Erodido de montanhas, montanhoso, montês.

Eu tinha 15 anos e me apresentei para uma platéia que esperava o que eu fui. Éramos coesos de alma, e mesmo na separação, havia um sol vasto entre nós. Era ele. Se pedíssemos para o vento parar, ele parava. Se quiséssemos o vôo, eis o planar no meio dos céus! Ele, o único responsável pelo Religare, grupo de duas ou três peças teatrais, religação de entranhas; tudo muito amador, tudo muito ingênuo e bem posto, sem que eu soubesse, olhei o mundo com os olhos dele.

Nenhuma representação de atriz. Só na vida. Houve no palco o fascínio de testar limites, apreensões. À ribalta de um frenesi. Que ignorância de mim! Palco, coxia, um vão de espera. Fora dali representei o amor.

Era amor. Só por ele o meu ódio, a minha pouca fé. Que contradição à beira do mundo! Precipícios escalados, dupla de um, bússola sem norte, pólo no Equador.

Havia uma tarefa e eu cumpri. Apreender um modo de ser e estar no mundo. Que diferença fez se foram duas ou três as peças que encenei?

Acho que fechei os olhos num adeus. O coração veio depois.

Além e só, as montanhas removeram aquela gente que eu acreditava minha; espaço, sonho, e toda relva atrás da cortina.

Secaram os pântanos, planaltos desceram; e o que sobrou? O que fomos quando deixamos de ser aquela agonia de espaços, e de abraços? Sobramos, uns dentro dos outros, alguns um pouco por fora. Demorou até que eu dissesse adeus.

No fim da peça eu entrei, uma vez mais, vi o rosto do filho de Deus. Eu, que beijara o Seu filho, o ator, tantas vezes! Eu, que tinha uma cara de Madalena arrependida! e de fato, eu haveria de me arrepender depois - hoje. Eu fui correndo contar para os outros o milagre da ressurreição; eu chorava de verdade, por alguma espécie de transtorno com a luz que eu via, com o século que eu vivia; era uma espécie de ressurreição sem volta.

Ele foi subindo, subindo.

Não criamos muitos ornamentos; fomos plantas da terra seca. Um par de orelhas disposto a virar brinco. O que abandona, e o que é abandonado. Muito talento para amar; umas poucas esculturas nascendo urgentes. Montanha, montanhoso, montês.

Subiu tão alto, que na montanha em que fiquei, restaram somente: eu, e a desinteira humanidade.


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24/08/2004 02:55

amor,



é-terna constatação
dos apaixonados.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 5 ) | Direitos Reservados



20/08/2004 18:11
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Um estranho desafio


Enfrento com vigor as indisposições do espírito, atraso da bondade não querendo discernir a vocação da gente. Num mundo em que se nasce para o cumprimento de normas de conduta, morais e sociais, até o amor ensaia suas pequenas obrigações. As leis do afeto, da Igreja, do Estado, do bom senso, da convivência; todas elas arregimentam o tempo e as vocações. Mestres, discípulos, os seres submissos, homens bons e maus, rendem-se à cultura das Eras, vão virando história, memória, arquétipo de gente. Do meu pendor, eu também desconheço. Não há mais hierarquias, como antigamente, o mundo é moldado de maneira diferente, e eu não me adaptei muito bem a ele. Desposei-me de um marido excêntrico; esse, o Terceiro Milênio. Ele vem enfurecendo as cidades todas, as metrópoles, as idéias; formando um furacão dentro do peito, de regras que se quebram, paradigmas correndo soltos no Olimpo das antigas divindades, os mitos, as glórias; a decadência. Não há muito em que acreditar. A sensação de um tudo vivido percorre os jazigos d’alma, amarelecendo as pétalas da infância que se ousou cultivar. Há um desafio novo para cada indivíduo que nasce, e que se reconstrói nesse século das des-construções. Desafio que sempre se impôs aos homens, e que agora, mais que nunca, serve-nos de atalho, de rito de passagem para qualquer lugar. A gente vive num labirinto, ou melhor, dentro da prosa louca de Borges; porque é um jardim de caminhos que se bifurcam o mundo dos nossos, das gentes, dos gentios. Sabe-se que há uma modernidade, um pós, do pós, do além-pós. A sensação é que já se viveu tudo, que já se viu de tudo, mas que ainda há quase tudo por fazer. É mesmo um desafio estranho esse o nosso. O de reparar o que não tem reparo, reparar na vida, sentir a vida, inventar o viver.


ps: tem coisa nova no outro blog: www.sedeemfrenteaomar.blogger.com.br


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados



14/08/2004 18:06





Esses são os números que eu te entrego enquanto durarem as horas do meu dia. São vinte e quatro oportunidades de dizer ‘eu te amo’, três mil e seiscentas formas de abrigar-te em pensamento, oitenta e seis mil e quatrocentas maneiras de pernoitar meu olhar no teu corpo, quando a noite chegar e me faltarem o sol das palavras. Cento e setenta e dois centímetros que eu dedico da mais pura admiração que alguém te possas nutrir. Mil quatrocentos e quarenta suspiros que nunca terminam num bocejo, do minuto a minuto que eu suspiro por ti. Dos trinta dentes que não me cabem na boca, vinte, seguramente, tu podes contar, dos incontáveis sorrisos que eu te dedico, para te ver sorrir também. Se antes meu peito batia de sessenta a cem vezes por minuto, agora suas pancadas alcançam média de cento e cinqüenta sístoles e diástoles. Da freqüência que não é cardíaca, mas sentimental.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 4 ) | Direitos Reservados



10/08/2004 17:30


Eu sempre procurei minha sede, sede dos meus impulsos. Meu gole d'água, minha seiva fecunda. Sempre fui deserto e oásis. Sempre derramei e enchi oceanos. Escorri dos olhos atentos de tanto mar e tanta embriaguez! Percorri tuas caravanas com olhos de menino, com curiosidade de menino que olha pelo buraco da fechadura. Procedi assim com meu amor. Trazendo-o por dentro do peito, lá emaranhado de tanto sonho, depositado de promessas feito feto a nascer. Aqui me valho desse ventre, dessa carne honrosa, cheia de curvas. Olho para o corpo que não me pertence e para a vida que, antes minha, é agora devoção.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados



09/08/2004 17:18

Recomeço - num recomeço de semana fria – a pôr palavras de diário nesse caderno virtual. Aprendi a esperar pelos melhores e piores momentos, e creio que agora é momento de recomeçar, sem alarde ou sussurro. Recomeçar. Fazer desse espaço não apenas a publicação de textos, subjetivos e alegóricos, mas a casa das minhas idéias, da rotina, coisa de blog, que eu esqueci como se fazia.

Tentei manter um outro espaço para isso, limitando esse à produção de textos. Mas não deu certo porque lá eu acabei fazendo o mesmo que eu fazia aqui, de maneira que eu fiquei sem espaço para escrever ‘meu querido diário’.

Ando me cobrando demais, de um menos que eu também não posso dar. Sei que é a isso que se deve o meu embaraço, o desconforto com que agora encaro o branco de uma folha. É que se for para escrever como antes, eu não sei se quero.

Não quero ficar republicando textos antigos, arquivos existem para isso. Não quero também perder a liberdade de aqui escrevê-los, caso me suscite vontade. Estou muito mais crítica, menos possessa e mais racional. Noventa e nove por cento transpiração. Ando engasgada, perfeccionista, chatinha, séria, pseudoprofissional.

É sempre mais fácil rejeitar o filho débil que alimentá-lo com amor de mãe, que lhe perdoa as falhas. É tão covarde, eu sei! Mas é mais fácil também. Enganar a própria vontade, exauri-la de críticas. Deixar a esmo. A resma das folhas, linhas que eu quase escrevi.

Começo a semana sem planos, sem ação. Lúcida e nocauteada. Tristemente apática. Acordando para dormir. Felizmente, tais sensações não durarão mais que algumas horas, um dia, no máximo, até que amanhã eu volte, grávida, das vontades que movimentam um homem.

Meus planos? Não fazer planos. Acontecer. Como um feriado, uma brisa na praia, como alguém que já fez planos demais, e deseja apenas o abraço do acaso, antes do entardecer.

E os livros que não li e planejei ler, ainda continuam empoeirados na estante.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados



07/08/2004 21:34

Então, escrevo!


Há um certo desconforto de tudo quanto é vago no meu ser. De quando o pensamento se aturde, em seu primeiro pensar. Uma sensação de imparidade comigo mesma e com o objeto pensado. E após o temor, a conciliação mútua de coisa concebida por séculos. É como se no meu eu mais longínquo, fosse concebido o meu eu-literário. O eu que, em suma, é o eu-pensamento. O eu-pensamento divaga com a literatura das veias, propondo criação venosa. O eu no meu sangue, correndo oxigênio, pulsando o pensamento primeiro das coisas. Pensamento Edênico. Eu-sinestesia pulsando os caminhos da obscuridade e da luz. Pulsando Deus. Do desconforto, segue-se a sensação do abismo iminente. Um dom natural, bruto. De possuir o estado-feto dos primeiros instantes. Trazer a palavra, prévia, como oferenda ao futuro. E ofertar o meu verbo, tão fosso, tão fundo. Cavar na minha terra, terra do meu corpo, as trincheiras donde repousam os meus algozes, os meus mártires, e toda a gente tecida com a dor do meu sonho, na batalha da criação textual. O texto concebido, que é o texto grávido, o texto urdido, afiançando o pensamento criador. Trazendo o Deus donde repousam as células do meu texto, múltiplas, subdivididas; por dois, e por mais quatro, de maneira conseguinte. Somando a si mesmo, na soma do mundo, quando vem a inspiração dançar sua dor. Então olho para a realidade imediata, e vejo, senão, a aflição do não ter, aflição de não ser. Criança esmolando o futuro. O semáforo da vida. Pedindo, suplicando os meus sonhos. Eu então, páro. Suplico a mim o meu texto, o desconforto do início, pensamento vagueando na emoção... Eu então, páro. Converto-me nas linhas do meu outro, nos sonhos do meu outro, e vou doendo, doendo... a escrita linda do de dentro, emoção jorrada em tinta, como no sangue possuído das veias, correndo comigo, venoso, pela imaginação. Repouso, então, delicada, plena, saciada. O menino lá de fora, coube aqui, dentro do meu ventre, na minha prosa louca. Coube aqui, e vai sonhar comigo, enquanto eu sonhar o meu texto. O desconforto se renova. A mão pende, suave, trêmula, na tinta do meu corpo. O torvelinho giratório dos cabelos, sacudindo o punhado de letras que a mão desenhou. O casamento do filho. O nascimento. A morte dos seus. Passagem imediata dos anos, trazida pela chuva que não veio. A história das vidas, narrada pelas vidas, e pelas histórias que as substituem. As vidas todas, no meu texto, tramadas pelas histórias que se gerarão. Vivo, conquanto minha vida não me permita sonhar. Sonho, conquanto meu sonho seja minha escrita. Ferina, indelével. Batalha que se trava nos crepúsculos, nas auroras, nas noites mal dormidas. Nas manhãs que não cessam de nascer, trazendo de novo a inspiração, o vigor do sonho. Café posto à mesa. Vida, de sobremesa. Eu não me canso de escrever, mas vou lá fora, contemplo o mundo, e volto com aquela sensação tão típica de quem se inebria de sentido. Contemplo o mundo, e vejo que ele não passa de um livro. Um livro gigante. De uma beleza própria e doída. Sinto a beleza do mundo. Por isso escrevo. Sinto a poesia. E escrevo. Sinto dor no meu ser. Ainda assim, escrevo. Vou lá fora de novo, troco a tinta da caneta. Abro uma página em branco... então escrevo o meu dia seguinte!


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04/08/2004 22:50


HENRI CARTIER - BRESSON, (Rue Mouffetard), 1954


"Colocar na mesma linha de mira, o olho, o coração e o alvo" - preconizava Henri Cartier-Bresson, um dos maiores fotógrafos do século XX, cujo trabalho tive o prazer de conhecer mais profundamente nas aulas do meu ex-professor de fotojornalismo, Dante Gastaldoni. Bresson foi eminentemente um capturador de instantes. Concebia a apreciação do tempo naquilo que ele tem de mais casual e fortuito. Nesse sentido, ele foi a poesia da literatura fotográfica, contrastando-se com a prosa de um Sebastião Salgado, e sua fotografia engajada, documental. Porque para Bresson todo momento foi decisivo. Decisivo como sempre foi para a história da fotografia.


Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados



31/07/2004 05:38
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ah!.. o amor,
ah!.. a ausência dele,
ah!.. a tentativa de ser feliz,
ah!.. o tempo de espera.
vivemos entre suspiros
porque a vida é uma interjeição;
e as lágrimas, apenas
as reticências...



*poemeto nascido em casebre de prata (e palavras de ouro), da tentiva de explicar o amor - e a dor. amor e dor se explicam?


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30/07/2004 04:08

É HORA



É hora, é hora. Árdua, custosa. Difícil a noite nesta casa. Sob pensamentos repousam delírios. Às onze despertam da mansidão açucena; na boca um lacre custoso de abrir. Quase como uma emboscada. Os minutos derradeiros deste dia. Prepara a carabina porque o homem há de passar. Mantém o seco dos olhos; mas sob frinchas, fendas e pernas faz escorrer a meretriz o líquido da noite. Escorre tão branco quanto o leite do sono. Enegrecido no véu das horas. Basta que o cortiço acene com esse sono branco, movediço por entre as fronhas, cortinas; basta que se apaguem algumas velas; para que a noite derreta como larva nos meus pés. Abrem-se caminhos tortuosos, noites; mil e uma. A fornalha do dia decepou a calma. Há abundância de desespero, de ventos tolos emancipando os cabelos. Difícil os minutos entrecortados, os que antecedem a calmaria de amanhã. Um sussurro ao longe berra pro vizinho que o silêncio chegou. É hora de não-sei. Deitar? Eu não me deito. Eu me acendo em soluços, e tremo perante o confronto dessa treva caindo no abismo do fim do dia, até que amanhã, amanhã a noite venha de novo buscar o conforto doméstico do quase escuro, televisão ligada, antes a vitrola, os ritos dentro de casa que vão mudando. A família que se reúne todas as noites, antes do descalabro. É quando tudo emudece, até mesmo o som corre a desaparecer a algazarra de então. Difícil demais, custoso demais fazer a casa aquietar-se, o sono vir buscar as crianças, os velhos, e os moços. Eu fico aqui, objeto noturno, satélite que também vem apanhar seu vintém de luz. É a parte que me cabe neste pesadelo; eu tremo as mãos, antes do sonho bom. É tudo o que eu posso fazer por vocês. Descrever esse fim de noite, que me cheira a morte, benedictus morte; antes que eu me recomponha do meu grito de soltura. Antes que eu volte com o grilhão da rotina. Agora permanece a roda liberta do meu pensamento nu. Tudo desacontece. Sim, quase como uma morte. Eu me transformo. Eu me solidifico junto com a noite, ganho maestria de desespero; ignoro a sapiência. Dubiedade de encantos. Tudo pode ruir se o ato não se fecha. Basta uma voz mais duvidosa no meio do meu caminho; uma cortina ventando incerta; olhar despreparado de toda mãe para a morte do rebento, que se despede porque virou essa sentinela do céu; basta um entreluzir de janelas que se olham, para que o líquido da noite vá escorrer em outro lugar destroçando o meu exército de sonhos inteiro. Destroça o meu reino de virtuosidades. Sombras justapostas, milimetricamente adestradas para estarem lá, diante dos meus olhos, descrevendo uma sensação. Mas se por algum sortilégio este encanto é rompido... nem sei bem se é isso o que meus nervos pedem. Ele foi rompido agora. Não posso trazê-lo pra vocês. É sempre essa a hora em que as mãos repousam sobre o teclado, a esfinge do pensamento olha o pensamento contido, todo imóvel antes de se ter. E parece que foi sonho. A imensidão desses encontros. É como se me trouxessem um Nazareno; ouro, incenso, mirra. A lisonja de olhar pro mundo antes de ser mundo, a noite antes da noite, antecipando Deus. É como se eu pudesse perceber os deuses de um dia se despregando dos céus, para virem os deuses do outro. O que eu posso contra esse destino que se agita sobre mim? O meu véu é brando, brando demais, frágil demais o meu sim. Até que eu descanse o meu sono calmo, todas as horas do mundo mergulharam aqui dentro, parindo o dia. Só me resta viver.
Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 2 ) | Direitos Reservados


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PERFIL:
Roberta Tostes, 22 anos.
Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, e os poemas do Manoel de Barros. Suas principais referências são Clarice Lispector, Raduan Nassar, Vírginia Woolf e Fernando Pessoa.
Vive pelas letras, suas e alheias.
É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.

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