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Volto ao que me investe de ímpeto e afeto - as letras; e o mundo dos blogs não abandono, muito embora retorne quase que silenciosamente. Como é enorme minha a sede, agora eu escrevo lá: Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 8 ) | Direitos Reservados
Sabe-se lá de onde escrevo estas linhas de deságua. Ausentei-me de ser, desvestindo-me de mim. Terminei não-sendo. Não me sucedi. Não me recriei. Desacostumei-me de me: achar, perder, somar e subtrair. Renunciei afetos e rancores. Abdiquei da condição de súdita do tempo. Parei presente. Formei vácuo. Desmaterializei-me. E daqui de onde não-estou, vejo-me, não vendo; antecipo nadas, espero o torpor passar... Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 15 ) | Direitos Reservados
Sei em mim de vazios e tormentas, Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 7 ) | Direitos Reservados
As vozes que escuto são icebergs que se chocam ao longe, tentando emergir. Assisto a tudo, impassível, porque sou e não sou neutra. Em mim, correm itinerários de loucuras e encontros com mar, terra e céu. No vôo em que me arvoro, voam árvores, tempos, desencontros... histórias. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 2 ) | Direitos Reservados
as emoções me sabem, subindo adivinhações na pele e no sorriso frouxo. eu pouco falo, mas aquiesço, grata ao destino; e antecipo os calores do olhar que prego dentro do teu. como que pregar fosse palavra rústica para o enlevo da hora, eu já não prego: abotôo. desabotôo também; peça a peça do teu vestuário-corpo, pr'eu te buscar na alma, grande vício de Deus, e do meu amor de entranhas. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados O que eu busco
Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 4 ) | Direitos Reservados
Eu me recosto na janela. Os cabelos em desalinho querendo viver. E quem sabe um vizinho aturdido com a cena? Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados
Não que não houvesse motivos para chorar. Eles abundavam. Havia tristeza no sangue russo, no terrorismo checheno, no frio dos mendigos brutalmente mortos da cidade de São Paulo. Até nos medos da menina, corria, consternada, uma lágrima de desalento e fel, que ela fazia questão de substituir por manhãs suntuosas de risos, entre prazeres solitários e pára-raios de magias indecisas, que eram os seus poemas enfrentando o pó dos dias o qual Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 5 ) | Direitos Reservados
A Festa Para acabar com essa sede de mim mesma, na forma alheia da superfície dos outros, eu fujo para a encenação. Enceno o meu, o seu e o nosso. Vou desenhando na cara os contornos de um sorriso vulgar, esbofeteando a natureza ingênua que a dor do ser depositou no meu ego-cêntrico. Brinco de ser. E acabo por acreditar que não há melhor maneira de matar o tempo. E de matar os sonhos. O meu passatempo cozinha à lenha os temperos mortos e os destinos que eu não haverei de ter. Em mim, tudo descamba pro inútil. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados
As montanhas do Eu Crescemos rápido como casuarinas naquele sol de terra quente em que vivíamos. Não criamos muitos ornamentos; fomos plantas da terra seca. Só que lambuzamos em pedra-sabão a nossa umidade de escultura; e de escultor. Tessitura seca dentro do céu da boca. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados
amor, Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 5 ) | Direitos Reservados
Um estranho desafio Enfrento com vigor as indisposições do espírito, atraso da bondade não querendo discernir a vocação da gente. Num mundo em que se nasce para o cumprimento de normas de conduta, morais e sociais, até o amor ensaia suas pequenas obrigações. As leis do afeto, da Igreja, do Estado, do bom senso, da convivência; todas elas arregimentam o tempo e as vocações. Mestres, discípulos, os seres submissos, homens bons e maus, rendem-se à cultura das Eras, vão virando história, memória, arquétipo de gente. Do meu pendor, eu também desconheço. Não há mais hierarquias, como antigamente, o mundo é moldado de maneira diferente, e eu não me adaptei muito bem a ele. Desposei-me de um marido excêntrico; esse, o Terceiro Milênio. Ele vem enfurecendo as cidades todas, as metrópoles, as idéias; formando um furacão dentro do peito, de regras que se quebram, paradigmas correndo soltos no Olimpo das antigas divindades, os mitos, as glórias; a decadência. Não há muito em que acreditar. A sensação de um tudo vivido percorre os jazigos d’alma, amarelecendo as pétalas da infância que se ousou cultivar. Há um desafio novo para cada indivíduo que nasce, e que se reconstrói nesse século das des-construções. Desafio que sempre se impôs aos homens, e que agora, mais que nunca, serve-nos de atalho, de rito de passagem para qualquer lugar. A gente vive num labirinto, ou melhor, dentro da prosa louca de Borges; porque é um jardim de caminhos que se bifurcam o mundo dos nossos, das gentes, dos gentios. Sabe-se que há uma modernidade, um pós, do pós, do além-pós. A sensação é que já se viveu tudo, que já se viu de tudo, mas que ainda há quase tudo por fazer. É mesmo um desafio estranho esse o nosso. O de reparar o que não tem reparo, reparar na vida, sentir a vida, inventar o viver. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados
Esses são os números que eu te entrego enquanto durarem as horas do meu dia. São vinte e quatro oportunidades de dizer ‘eu te amo’, três mil e seiscentas formas de abrigar-te em pensamento, oitenta e seis mil e quatrocentas maneiras de pernoitar meu olhar no teu corpo, quando a noite chegar e me faltarem o sol das palavras. Cento e setenta e dois centímetros que eu dedico da mais pura admiração que alguém te possas nutrir. Mil quatrocentos e quarenta suspiros que nunca terminam num bocejo, do minuto a minuto que eu suspiro por ti. Dos trinta dentes que não me cabem na boca, vinte, seguramente, tu podes contar, dos incontáveis sorrisos que eu te dedico, para te ver sorrir também. Se antes meu peito batia de sessenta a cem vezes por minuto, agora suas pancadas alcançam média de cento e cinqüenta sístoles e diástoles. Da freqüência que não é cardíaca, mas sentimental. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 4 ) | Direitos Reservados
Eu sempre procurei minha sede, sede dos meus impulsos. Meu gole d'água, minha seiva fecunda. Sempre fui deserto e oásis. Sempre derramei e enchi oceanos. Escorri dos olhos atentos de tanto mar e tanta embriaguez! Percorri tuas caravanas com olhos de menino, com curiosidade de menino que olha pelo buraco da fechadura. Procedi assim com meu amor. Trazendo-o por dentro do peito, lá emaranhado de tanto sonho, depositado de promessas feito feto a nascer. Aqui me valho desse ventre, dessa carne honrosa, cheia de curvas. Olho para o corpo que não me pertence e para a vida que, antes minha, é agora devoção. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados
Recomeço - num recomeço de semana fria – a pôr palavras de diário nesse caderno virtual. Aprendi a esperar pelos melhores e piores momentos, e creio que agora é momento de recomeçar, sem alarde ou sussurro. Recomeçar. Fazer desse espaço não apenas a publicação de textos, subjetivos e alegóricos, mas a casa das minhas idéias, da rotina, coisa de blog, que eu esqueci como se fazia. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados
Então, escrevo!
Há um certo desconforto de tudo quanto é vago no meu ser. De quando o pensamento se aturde, em seu primeiro pensar. Uma sensação de imparidade comigo mesma e com o objeto pensado. E após o temor, a conciliação mútua de coisa concebida por séculos. É como se no meu eu mais longínquo, fosse concebido o meu eu-literário. O eu que, em suma, é o eu-pensamento. O eu-pensamento divaga com a literatura das veias, propondo criação venosa. O eu no meu sangue, correndo oxigênio, pulsando o pensamento primeiro das coisas. Pensamento Edênico. Eu-sinestesia pulsando os caminhos da obscuridade e da luz. Pulsando Deus. Do desconforto, segue-se a sensação do abismo iminente. Um dom natural, bruto. De possuir o estado-feto dos primeiros instantes. Trazer a palavra, prévia, como oferenda ao futuro. E ofertar o meu verbo, tão fosso, tão fundo. Cavar na minha terra, terra do meu corpo, as trincheiras donde repousam os meus algozes, os meus mártires, e toda a gente tecida com a dor do meu sonho, na batalha da criação textual. O texto concebido, que é o texto grávido, o texto urdido, afiançando o pensamento criador. Trazendo o Deus donde repousam as células do meu texto, múltiplas, subdivididas; por dois, e por mais quatro, de maneira conseguinte. Somando a si mesmo, na soma do mundo, quando vem a inspiração dançar sua dor. Então olho para a realidade imediata, e vejo, senão, a aflição do não ter, aflição de não ser. Criança esmolando o futuro. O semáforo da vida. Pedindo, suplicando os meus sonhos. Eu então, páro. Suplico a mim o meu texto, o desconforto do início, pensamento vagueando na emoção... Eu então, páro. Converto-me nas linhas do meu outro, nos sonhos do meu outro, e vou doendo, doendo... a escrita linda do de dentro, emoção jorrada em tinta, como no sangue possuído das veias, correndo comigo, venoso, pela imaginação. Repouso, então, delicada, plena, saciada. O menino lá de fora, coube aqui, dentro do meu ventre, na minha prosa louca. Coube aqui, e vai sonhar comigo, enquanto eu sonhar o meu texto. O desconforto se renova. A mão pende, suave, trêmula, na tinta do meu corpo. O torvelinho giratório dos cabelos, sacudindo o punhado de letras que a mão desenhou. O casamento do filho. O nascimento. A morte dos seus. Passagem imediata dos anos, trazida pela chuva que não veio. A história das vidas, narrada pelas vidas, e pelas histórias que as substituem. As vidas todas, no meu texto, tramadas pelas histórias que se gerarão. Vivo, conquanto minha vida não me permita sonhar. Sonho, conquanto meu sonho seja minha escrita. Ferina, indelével. Batalha que se trava nos crepúsculos, nas auroras, nas noites mal dormidas. Nas manhãs que não cessam de nascer, trazendo de novo a inspiração, o vigor do sonho. Café posto à mesa. Vida, de sobremesa. Eu não me canso de escrever, mas vou lá fora, contemplo o mundo, e volto com aquela sensação tão típica de quem se inebria de sentido. Contemplo o mundo, e vejo que ele não passa de um livro. Um livro gigante. De uma beleza própria e doída. Sinto a beleza do mundo. Por isso escrevo. Sinto a poesia. E escrevo. Sinto dor no meu ser. Ainda assim, escrevo. Vou lá fora de novo, troco a tinta da caneta. Abro uma página em branco... então escrevo o meu dia seguinte! Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 1 ) | Direitos Reservados
"Colocar na mesma linha de mira, o olho, o coração e o alvo" - preconizava Henri Cartier-Bresson, um dos maiores fotógrafos do século XX, cujo trabalho tive o prazer de conhecer mais profundamente nas aulas do meu ex-professor de fotojornalismo, Dante Gastaldoni. Bresson foi eminentemente um capturador de instantes. Concebia a apreciação do tempo naquilo que ele tem de mais casual e fortuito. Nesse sentido, ele foi a poesia da literatura fotográfica, contrastando-se com a prosa de um Sebastião Salgado, e sua fotografia engajada, documental. Porque para Bresson todo momento foi decisivo. Decisivo como sempre foi para a história da fotografia. Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 0 ) | Direitos Reservados
ah!.. o amor, *poemeto nascido em casebre de prata (e palavras de ouro), da tentiva de explicar o amor - e a dor. amor e dor se explicam? Roberta Tostes | Enforque-se na corda da liberdade( 5 ) | Direitos Reservados
É HORA
É hora, é hora. Árdua, custosa. Difícil a noite nesta casa. Sob pensamentos repousam delírios. Às onze despertam da mansidão açucena; na boca um lacre custoso de abrir. Quase como uma emboscada. Os minutos derradeiros deste dia. Prepara a carabina porque o homem há de passar. Mantém o seco dos olhos; mas sob frinchas, fendas e pernas faz escorrer a meretriz o líquido da noite. Escorre tão branco quanto o leite do sono. Enegrecido no véu das horas. Basta que o cortiço acene com esse sono branco, movediço por entre as fronhas, cortinas; basta que se apaguem algumas velas; para que a noite derreta como larva nos meus pés. Abrem-se caminhos tortuosos, noites; mil e uma. A fornalha do dia decepou a calma. Há abundância de desespero, de ventos tolos emancipando os cabelos. Difícil os minutos entrecortados, os que antecedem a calmaria de amanhã. Um sussurro ao longe berra pro vizinho que o silêncio chegou. É hora de não-sei. Deitar? Eu não me deito. Eu me acendo em soluços, e tremo perante o confronto dessa treva caindo no abismo do fim do dia, até que amanhã, amanhã a noite venha de novo buscar o conforto doméstico do quase escuro, televisão ligada, antes a vitrola, os ritos dentro de casa que vão mudando. A família que se reúne todas as noites, antes do descalabro. É quando tudo emudece, até mesmo o som corre a desaparecer a algazarra de então. Difícil demais, custoso demais fazer a casa aquietar-se, o sono vir buscar as crianças, os velhos, e os moços. Eu fico aqui, objeto noturno, satélite que também vem apanhar seu vintém de luz. É a parte que me cabe neste pesadelo; eu tremo as mãos, antes do sonho bom. É tudo o que eu posso fazer por vocês. Descrever esse fim de noite, que me cheira a morte, benedictus morte; antes que eu me recomponha do meu grito de soltura. Antes que eu volte com o grilhão da rotina. Agora permanece a roda liberta do meu pensamento nu. Tudo desacontece. Sim, quase como uma morte. Eu me transformo. Eu me solidifico junto com a noite, ganho maestria de desespero; ignoro a sapiência. Dubiedade de encantos. Tudo pode ruir se o ato não se fecha. Basta uma voz mais duvidosa no meio do meu caminho; uma cortina ventando incerta; olhar despreparado de toda mãe para a morte do rebento, que se despede porque virou essa sentinela do céu; basta um entreluzir de janelas que se olham, para que o líquido da noite vá escorrer em outro lugar destroçando o meu exército de sonhos inteiro. Destroça o meu reino de virtuosidades. Sombras justapostas, milimetricamente adestradas para estarem lá, diante dos meus olhos, descrevendo uma sensação. Mas se por algum sortilégio este encanto é rompido... nem sei bem se é isso o que meus nervos pedem. Ele foi rompido agora. Não posso trazê-lo pra vocês. É sempre essa a hora em que as mãos repousam sobre o teclado, a esfinge do pensamento olha o pensamento contido, todo imóvel antes de se ter. E parece que foi sonho. A imensidão desses encontros. É como se me trouxessem um Nazareno; ouro, incenso, mirra. A lisonja de olhar pro mundo antes de ser mundo, a noite antes da noite, antecipando Deus. É como se eu pudesse perceber os deuses de um dia se despregando dos céus, para virem os deuses do outro. O que eu posso contra esse destino que se agita sobre mim? O meu véu é brando, brando demais, frágil demais o meu sim. Até que eu descanse o meu sono calmo, todas as horas do mundo mergulharam aqui dentro, parindo o dia. Só me resta viver.
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PERFIL:
Roberta Tostes, 22 anos.
Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, e
os poemas do Manoel de Barros. Suas principais referências são Clarice Lispector,
Raduan Nassar, Vírginia Woolf e Fernando Pessoa.
Vive pelas letras, suas e alheias.
É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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